A
maior parte das pessoas apenas existem dentro de si próprias e sobrevivem
rodeadas pelo mundo à sua volta.
Hoje
em dia, este é o pensamento que mais me assusta, muito honestamente – a
perceção de olhar para trás, visualizar a minha vida e perceber que não
aproveitei alguma fase por motivo que seja, que estava a apenas a existir de
alguma maneira e não estava a viver a vida ao seu melhor.
Olhar
para trás e perceber que estava apenas a sobreviver. Não ria, não sorria, não
sentia e também não chorava.
Estava
apenas ali, mas nem sequer estava totalmente presente. Perdida no mundo e
perdida dentro de mim, nas emoções que não sentia e nos pensamentos que me
atrofiavam e que me faziam querer fugir de mim mesma.
Tive
um ano que foi basicamente assim, de apenas estar a existir, de sorrisos falsos
e risos forçados, abraços frios e momentos estranhos. Sem perceber que eu
própria me retirava do presente, eu própria pedia para me esconder e fugir da
realidade, fugia para dentro de mim quando nem aí queria estar.
Eu,
na altura, já sabia e tinha perceção de que estava apenas a sobreviver, mas não
tinha noção do quanto eu estava a forçar, o quanto pretendia estar envolvida e
presente para não preocupar mais as pessoas; e, na verdade, nem sequer era para
tentar esconder as minhas dores, mas sim para proteger ao máximo o meu coração.
Ao
olhar para trás, mas para o ano seguinte a esse, consigo ver que continuei a
ter imensos momentos de apenas a existir, embora muitos menos porque tive,
também, muitos em que estava realmente a aproveitar a vida, a vivê-la.
Tenho
vivido mais e isso tem sido graças a algumas pessoas muito especiais. E é, tendo
estes momentos para refletir, que podemos perceber o quanto a vida é
influenciada pelas pessoas à nossa volta – tanto para o bom como para o mau. Quão
bom é olharmos para trás e sentirmo-nos não apenas envolvidos, mas bem-vindos
ao presente, não apenas por nós, mas por pessoas que nos chamam ao presente,
que criam ambientes em que nos sentimos bem o suficiente para enterrarmos a dor
momentaneamente, colocá-la de lado, para vivermos o agora.
Estar
mais fora das redes sociais também me ajudou e continua a ajudar imenso, embora
ultimamente tenha sentido alguma falta também. De partilhar a vida. Talvez
porque agora esteja a viver totalmente outra vez. Partilhar não apenas que a
vida melhorou, mas também que não apenas me perdi no caminho e me reencontrei, mas que
consigo rir alto outra vez. E que o sorriso cheio de vida e vontade de viver voltou
também.
Durante
meses tenho pensado em voltar com o blog. A minha necessidade e vontade de
escrever mais e mais vêm crescendo dentro de mim como um crescendo musical. A preparação para voltar com o blog tem sido
imensa, não apenas de escrita e programação, mas de preparação mental para
voltar a colocar-me online, porque quando passamos tanto tempo a protegermo-nos
constantemente é preciso, também, repensar o online, ainda mais quando o que
publicamos e partilhamos são os nossos, mais intensos e bem guardados,
pensamentos e sentimentos.
Sim,
muito do que aqui partilho não é 100% real – com base em sentimentos reais e
verdadeiros, mas com inspiração, não a vida real, o que traz uma confiança
maior ao partilhar, mas muito, também, é real. E algo que me fascina muito é a
minha escrita ser tão real e sensível que as pessoas não consigam ter perceção,
quando leem, do que é real e do que é falso.
Mas,
rapidamente, voltando ao assunto: o mais importante para vivermos a sério e não
apenas existirmos, para além de trabalharmos no porquê de nos sentirmos assim,
é tentarmos. E o tentar, atenção, é o que mais nos drena e cansa.
A
constante de nos colocarmos em posições em que, talvez no fundo, não queremos
estar, de termos de deixar a ansiedade a remoer-nos por dentro enquanto tentamos
ao máximo estar presentes.
Um
exemplo muito específico (e real): durante meses, no início da minha jornada em
Aveiro, convidei amigos para jantares e noites de jogos, não apenas porque
queria estar com eles e pela companhia; muitas vezes não me apetecia, muitas
vezes já sabia que me ia drenar e ia ficar super cansada, mas mais do
que isso, sabia o quanto precisava disso, do tempo com pessoas, de estar
rodeada de riso verdadeiro e sem medo.
E queria-o – queria viver e essas pessoas faziam-me sentir viva, ajudavam-me a voltar ao presente e a voltar a mim, ajudavam-me a viver.
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