Mãe, fiz casa aqui, a 600km da tua

 Mãe, fiz casa aqui, a 600km da tua 

Sem saber bem como:

A maresia de Aveiro substituiu a da Lacóbriga

O vento aveirense a ventania do barlavento

E a chuva de inverno do centro pelo calorzinho do Algarve

E ainda assim, aqui sinto-me tão bem

como me senti tantos anos a fio em Lagos

Sinto a liberdade que sentia no Cotifo

E a paz que o Porto Mós me dava

A vida é calma

Às vezes faço dela, um grande rebuliço 

Mas é pacífica como de outrora nunca foi

Ainda que, com lágrimas e dores,

A tranquilidade nunca me abalou tanto

Paro e reflito na imensidão dela

Sou tão intensa que acabo afogada nela

Mas sabe tão bem sentir o corpo a relaxar

e a mente a parar

que sei que nunca mais quero voltar

A simplicidade da vida é o que mais anseio

e foi aqui que a verdadeiramente encontrei

e não me atrevo a colocar a hipótese de perdê-la.

 

Dois anos desde que entreguei num Alfa com seis malas e sai em Aveiro 6h30 depois com cinco malas. O dia icónico em que a música “deixei uma mala no comboio” virou o meu hino durante meses.

Lembro-me tão perfeitamente como se tivesse sido ontem: as despedidas, as surpresas, os abraços apertados e todas lágrimas. Depois de duas noites sem dormir nada, entrar no comboio em Tunes cedinho e olhar pela janela e não sentir nada.

Conto pelos dedos o número de vezes que, entretanto, fui ao Algarve. Quando entrei naquele comboio sabia-o, talvez ainda não o queria aceitar e muito menos conseguia dizê-lo em voz alta, tornar mais real que o Algarve tinha deixado de ser casa e que, apesar das pessoas que lá estão continuarem a ser; tornar real que a partir daquele momento – mesmo que dentro de mim já o fosse há mais tempo – seria diferente. Era um marco na minha vida, um ponto final na tempestade que se tinha instalado dentro de mim há tanto tempo. Sentia-me como Odisseu perdido à procura de casa – talvez seja por isso que gostei tanto do filme, revi-me nele perdido, a lutar mares e gigantes, deuses e sonhos pela paz que só encontrava nos braços da Penélope. Talvez Aveiro fosse a minha Penélope.

E dois anos depois, ir ao Algarve tem-se tornado mais leve. Cada vez que lá vou é mais simples e, até, mais fácil, apesar de a vida continuar a pregar-me partidas e de a ansiedade continuar a instalar-se quando me preparo para lá ir e lá e quando volto de lá. O Algarve continua a ser casa por causa da bequinhas mais pequena, porque lá vivi tanto e carreguei tanta dor e ri tanto.

Mas Aveiro, oh o meu Aveiro. Já tinha sangue daqui, mas tornei-me verdadeiramente aveirense de alma e coração. Os meus jantares e leituras infinitas à beira-ria acompanhada pelos moliceiros que passam e os patos a nadar, as corridas pelas salinas, os passeios pelo rossio e pela praça a qualquer altura do dia e a praia de areal quente e água gelada como eu gosto. Consigo rir em qualquer lugar desta cidade que me acolheu.

Cada vez que me perguntam se tenciono voltar para Algarve em breve, a resposta é mais e mais certa. As incertezas vão-se reduzindo e a vontade de ficar, apesar das dificuldades da vida, instala-se mais e mais. 

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