Quando era mais nova, era mais rica.

            Só não o sabia. E agora que olho para trás, alegro-me pela riqueza e ingenuidade que tinha.


Tinha tempo e riso. Sem pressões ou ganhos a mostrar e sentir que tinha de ostentar, sem medo do futuro, não havia necessidade de correr atrás da vida nem o sentimento de ter de correr atrás do tempo ‘perdido’; não havia manipulação – bem, no meu caso havia, mas eu ainda não me tinha apercebido.

A ceguez que tinha do mundo fazia-a me mais rica. A inocência deixava-me mais leve. Mas ser cega e inocente fez de mim um alvo e tu podes pensar que foi para o mundo em si, também, mas também para o núcleo da minha vida.

 

E o tempo; oh o tempo para não me preocupar, o tempo para rir e pintar. Para viver inocentemente e sonhar sem expectativas. Quando sentia que tinha todo o tempo do mundo, que tinha a vida toda pela frente – e, apesar de saber que ainda tenho muita vida pela frente, sinto que estou cada vez mais a correr atrás do tempo. Do tempo que parece que perdi aqui ou ali, nas fases e jornadas mais difíceis. O tempo que despendi, e muito bem despendido, a curar e sarar as dores e feridas que a vida me tinha trazido. O tempo que perdi parada, a ver a vida passar-me ao lado, como se fosse num comboio a ver as vistas desaparecerem pela janela.

 

Agora, há esta pressão para viver isto ou aquilo. Existem estas fases e tempos para as viver que tenho de seguir supostamente, como se já tivesse a vida toda pré-escrita, mas, ao mesmo tempo, sem pressão, atenção!

E estes sonhos que parecem tão fora de alcance e, ainda assim, sinto que estou a ficar sem tempo para os conquistar. Oh, e os grandes planos que é suposto estar a realizar e ainda nem sei o que vou fazer este domingo.

As histórias parecem estar a correr contra o tempo também. Já contei todas uma e outra vez, agora em vez de criar novas, parece que estou sempre a repetir as antigas. Quero viver mais, criar mais histórias, aquelas boas para contar nas tardes em família aos netos daqui a muitos anos. Mas, viver mais, não pelo futuro, mas por mim, pelo eu do presente que precisa de viver e pelo eu do passado que anseia dentro de mim que eu vá e viva, apesar de tudo – que me pede todos os dias o mesmo quando acordo e quando me deito.

Ainda tenho muitas lágrimas que não chorei, e o riso não me vem tão livremente, pelo menos, não tanto como quando era miúda, quando ria alto e sem pudor. Ainda quero chorar, às vezes todos os dias, às vezes desaparece durante meses, mas sinto-o cá dentro. E quero chorar, pelo passado que tive e o que tinha direito e não tive, quero chorar pelo passado que queria e não vivi, pelos planos que já passaram de validade e pelos sonhos que não tive tempo ou capacidade de ir atrás. Quero chorar pelo presente que podia ter, mas não tenho e, ainda mais, quero chorar pelo futuro que sonhei e nunca terei porque já não me é possível. Ainda assim, quero chorar de felicidade por quem sou e pelo que ultrapassei.

 

Estou a tentar trazer esta riqueza de volta, para que me sinta mais viva ainda. Viver mais todos os dias. É engraçado quando agora me sinto aborrecida por estar mais de um dia em casa sem sair ou estar com pessoas, quando há meros meses queria estar enfiada no meu pequeno quarto dias a fio sem ver ou falar com ninguém.

Começo a sentir-me presa no quarto onde antes era o único sítio onde me sentia segura. Presa na vida que tenho, quando quero mais. Mais de mim e mais da vida.

Quero voltar a sentir-me como me sentia quando tinha 7 anos. Sei que já não é totalmente possível, mas não é impossível – vou esforçar-me para me sentir o mais próximo disso, para viver desta forma livre e feliz como vivia. Para, não apenas me fazer feliz agora, mas fazer a minha versão mais nova, que não teve a possibilidade de viver tão grandemente como queria, também feliz.

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